passei os últimos cinco anos em um relacionamento abusivo. era a primeira coisa para dizer ao começar um texto. era a coisa que demorei alguns meses pra dizer a mim mesmo. longe das fragilidades do meu coração, e perto de algo menos dilatoso eu poderia dizer agora todas as coisas que passei. mas tem uma fresta de sol entrando na janela que desenha o piso até metade da casa. é aqui onde talvez eu possa falar com ela e nesse processo de cura iluminar as frestas do corpo. (...)
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2023
ID:
JC1073
azulejos encontrados em uma caçamba, gesso e esmalte sintético
passei os últimos cinco anos em um relacionamento abusivo. era a primeira coisa para dizer ao começar um texto. era a coisa que demorei alguns meses pra dizer a mim mesmo. longe das fragilidades do meu coração, e perto de algo menos dilatoso eu poderia dizer agora todas as coisas que passei. mas tem uma fresta de sol entrando na janela que desenha o piso até metade da casa. é aqui onde talvez eu possa falar com ela e nesse processo de cura iluminar as frestas do corpo. e agora essa imagem do meu corpo sobreposto a cidade me fez dizer a primeira frase. como num espelho eu e a noite as janelas e luzes escutando-nos. passei alguns meses sem conseguir me aproximar muito de outro corpo. não pelo outro, mas não sentia o meu próprio corpo. talvez seja difícil imaginar o esvaziamento, um corpo sem órgãos deleuziano. ela me diz que as cores trouxeram vida pra arte. antes de sair lembrei de uma correntinha de prata da minha vó e quis colocá-la, mas dentro da caixa primeiro apareceu o escapulario do sagrado coração que minha mãe me deu pouco depois que me mudei pra são paulo. me senti protegido naquele fim de dia. me senti com medo ao ver ele depois de tanto tempo. havia uma energia tão forte ali que ele não conseguiu se aproximar. nas minhas costas e no meu peito. ano passado pensei em mudar de cidade. mas era a minha cidade, a minha casa, minha janela que dá pra um abismo de casas e um horizonte feito pasto cheio de "bois brabos". era onde eu queria estar vivo, muito vivo. e agora um amarelo cor de sol as duas da tarde, um outro corpo liberto. entro num taxi que contorna o lago e penso no meu corpo na cama dele, como se nunca tivesse ficado nu na frente de ninguém. chego na casa dela, várias mariposas presas nos cômodos e na fachada colonial. mariposa de um amarelo clarinho rendadas. há uma presa nos vidros do box, escorregando na água do banho. e nesse momento conto a ela sobre a noite anterior. minhas mãos trêmulas, uma vontade de prazer e a frustração de não sentir-se suficiente ou inteiro. ela coa um café na prensa francesa, me diz que sua vó que falecera algumas horas não gostava de café e então que bebessemos em homenagem a minha. é a segunda noite e posso ouvir o coração dele bater. ele respira devagar e tem os olhos calmos. agora é fim de tarde e ele dorme com a cabeça encostada no meu colo. penso nas estradas e nos rios outra vez. na chuva mansa que se confunde com a bruma do mar. mas nunca saberemos. todas as palavras e todas as coisas da vida atravessando este corpo. são cinco da manhã e só me alembro de você deitado no meu colo leve feito um pássaro, 2023.
Título completo:
passei os últimos cinco anos em um relacionamento abusivo. era a primeira coisa para dizer ao começar um texto. era a coisa que demorei alguns meses pra dizer a mim mesmo. longe das fragilidades do meu coração, e perto de algo menos dilatoso eu poderia dizer agora todas as coisas que passei. mas tem uma fresta de sol entrando na janela que desenha o piso até metade da casa. é aqui onde talvez eu possa falar com ela e nesse processo de cura iluminar as frestas do corpo. e agora essa imagem do meu corpo sobreposto a cidade me fez dizer a primeira frase. como num espelho eu e a noite as janelas e luzes escutando-nos. passei alguns meses sem conseguir me aproximar muito de outro corpo. não pelo outro, mas não sentia o meu próprio corpo. talvez seja difícil imaginar o esvaziamento, um corpo sem órgãos deleuziano. ela me diz que as cores trouxeram vida pra arte. antes de sair lembrei de uma correntinha de prata da minha vó e quis colocá-la, mas dentro da caixa primeiro apareceu o escapulario do sagrado coração que minha mãe me deu pouco depois que me mudei pra são paulo. me senti protegido naquele fim de dia. me senti com medo ao ver ele depois de tanto tempo. havia uma energia tão forte ali que ele não conseguiu se aproximar. nas minhas costas e no meu peito. ano passado pensei em mudar de cidade. mas era a minha cidade, a minha casa, minha janela que dá pra um abismo de casas e um horizonte feito pasto cheio de "bois brabos". era onde eu queria estar vivo, muito vivo. e agora um amarelo cor de sol as duas da tarde, um outro corpo liberto. entro num taxi que contorna o lago e penso no meu corpo na cama dele, como se nunca tivesse ficado nu na frente de ninguém. chego na casa dela, várias mariposas presas nos cômodos e na fachada colonial. mariposa de um amarelo clarinho rendadas. há uma presa nos vidros do box, escorregando na água do banho. e nesse momento conto a ela sobre a noite anterior. minhas mãos trêmulas, uma vontade de prazer e a frustração de não sentir-se suficiente ou inteiro. ela coa um café na prensa francesa, me diz que sua vó que falecera algumas horas não gostava de café e então que bebessemos em homenagem a minha. é a segunda noite e posso ouvir o coração dele bater. ele respira devagar e tem os olhos calmos. agora é fim de tarde e ele dorme com a cabeça encostada no meu colo. penso nas estradas e nos rios outra vez. na chuva mansa que se confunde com a bruma do mar. mas nunca saberemos. todas as palavras e todas as coisas da vida atravessando este corpo. são cinco da manhã e só me alembro de você deitado no meu colo leve feito um pássaro, 2023.