Sandra Mazzini: Território de Ilusões

Com o trabalho alicerçado na paisagem recortada, inventada e recriada, Sandra Mazzini apresenta aqui obras que reorientam os espaços do real em um intenso trânsito entre o que se vê, o que se imagina e o que se pode elaborar. Seu processo inicia na busca por imagens em um mundo habitado por elas, por interiores ocupados que passam a ser desocupados, ou vice-versa.

Interessa a ela hibridar o convívio do real e do artificial, e, apesar de suas paisagens serem editadas e montadas, elas não deixam de ser construções do real. Para pensar a obra de Mazzini e as políticas construídas em suas imagens, recorro a Philippe Dubois, teórico francês que se dedica a pensar o campo da imagem, em especial as fotográficas. Em seu famoso ensaio “O ato fotográfico”, Dubois nos provoca ao concluir que toda criação parte de um traço do real, mesmo aquelas imaginadas. A realidade é o nosso ponto de partida, é o nosso conhecido e de onde conseguimos nos identificar.

Em seu processo, Sandra Mazzini recorre a relações enredadas entre fotografia, imaginação e pintura. Se um dia, a fotografia almejou os cânones da pintura, hoje, ambas se conectam em uma linha pouco distante e que muitas vezes são tensionadas ou amalgamadas. O trabalho de Sandra Mazzini parte da imagem fotográfica, mas não se limita nela. É na pintura que ele se forma e se efetiva. São pinturas de lugares que ela não conhece e onde nunca esteve. Mas, talvez, na ânsia de estar, toma-os para si em imagem. É um roubo da paisagem disponível no mundo digital, mas também a seleção daquelas com as quais deseja conectar.

São paisagens inventadas que se tornam reais quando pintadas, quanto viram mais um elemento habitante deste mundo e tempo. É um trabalho de dedicação e exaustão, e que, em um gesto de partilha, podemos aqui, com nossas percepções, adicionar novas camadas.

Luciara Ribeiro, curadora