Pedro Moraleida: Fluxos Plenos de Desejo

O mais intrigante artista de sua geração. Uma história marcada pela produção compulsiva e cheia de significados. Um trágico fim disfarçado de uma liberdade inalcançável. A breve e contundente história de Pedro Moraleida (1977-1999) deixou como legado um considerável conjunto de obras que chama atenção por sua singularidade, coerência, vigor e coragem de enfrentar a apatia dominante à sua volta. Não apenas nas artes, inclusive. “É um trabalho extraordinário, feito por um artista extraordinário, e que precisa ser mais mostrado, conhecido e estudado”, diz o suíço Hans Ulrich Obrist, curador da Serpentine Gallery, de Londres, e da mostra Imagine Brazil (2013), que levou os trabalhos de Moraleida pela primeira vez ao exterior, e é considerado um dos curadores de arte contemporânea mais influentes do mundo.

Fluxos Plenos de Desejo exibe parte desse valioso acervo. São 25 pinturas, 61 desenhos e 16 desenhos/pinturas de um criador arredio às regras, livre e experimental, combinando formatos, técnicas e materiais. Um recorte que representa a potência de suas obras visuais (para além dos textos e arquivos sonoros), em sua maior parte sobre papel.

Trata-se de uma seleção expressiva, dentro de um universo de 1.900 peças (1.450 desenhos e 150 pinturas) deixados pelo jovem artista. Moraleida abraçou a tradição clássica da pintura e do desenho em um momento - os anos 90 - em que essas linguagens eram desacreditadas e preteridas frente a uma explosão de performances, vídeos e instalações, sob domínio da arte conceitual. Seu projeto reafirmava a vitalidade da pintura e a íntima relação entre a arte e as problemáticas humanas e sociais.
Entregue a mergulhos em universos muito próprios, o jovem mineiro de Belo Horizonte ousou ignorar tendências, com a coragem de quem corta a própria carne para expor medos, desejos e sonhos, determinado a se envolver com tudo aquilo que existe e perturba, dentro e fora de si. Bem como se espera de um enfant terrible, um artista romântico pleno - e incontrolável.

O trabalho de Pedro Moraleida, como quer Obrist, vem sendo descoberto nos últimos anos, e causando assombro, onde quer que seja mostrado – seja No Paço das Artes, em sua cidade natal, Belo Horizonte, seja em grandes mostras póstumas, coletivas e individuais, em espaços como Instituto Tomie Ohtake, Astrup Fearnley Museet (Noruega), Musée d’Art Contemporain de Lyon e 11ª Bienal de Berlim (2020), onde foi exibido com destaque.

O mundo herda, assim, um projeto artístico único, pleno, maduro e radical. Um acervo reconhecido por suas dimensões, eloquência e diversidade e que ousa revelar o que há de sedutor e assombroso em todos e cada um.